quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Carnaval 2008 - Terceiro dia (04/02/2008) - O carnaval do BOPE

Na segunda, estávamos tranquilos. Como naquele dia o carnaval da 203 sul constava da programação oficial do GDF, a rua estaria fechada para o trânsito. De tarde, na 403, onde o Ventoinha de Canudo se concentra, fizemos nosso tradicional lanchinho, com Bolo de Banana da Vovó, para nos dar energia, disposição e inspiração para mais um dia de folia.


Subimos, por volta das 17:00, para a 203. Lá chegando, nos encontramos com o Tamnoá, bloco de maracatu formado por jovens do Paranoá. A magia do encontro das alfaias com os pífanos encheu a rua de beleza e de música. O Galinho encontra-se a cerca de 400 m rua acima de nós. A rua estava repleta de gente, do público do Galinho, composto por famílias inteiras, crianças, adultos, idosos, etc..


Quando o Galinho partiu para seu trajeto até o Gran Folia, localizado na Esplanada dos Ministérios, eram cerca de 18:30. Além do Ventoinha, mais dois grupos musicais alegravam os que não acompanharam o Galinho. Por isso, eram muitas crianças. Os que ficam para trás são justamente aqueles que têm limitações em acompanhar um trajeto longo, debaixo da chuva que não deixou de cair em Brasília no carnaval. Foi por volta das 19:00 que a polícia iniciou seu belíssimo show.


A imagem abaixo mostra onde nos encontrávamos tocando minutos antes da entrada do Bloco do BOPE.




A rua estava repleta de gente. Viaturas da polícia militar começaram a andar propositalmente e provocativamente por entre as pessoas, criando a maior algazarra com suas sirenes ensurdecedoras. Os foliões, inteligentes que são, perceberam que a PM tinha intenção de acabar com o carnaval. O povo vaiou e não adiantou. O povo cantou alegremente "Marcha soldado, cabeça de papel...", tentando demovê-los da estúpida idéia de acabar, às 19:30, com o carnaval que havia começado às 18:00. Em vão. Continuavam viaturas subindo e descendo a rua, empurrando o povo para lá e para cá. Num momento, as viaturas da PM desceram a rua seguidas por vários, vários, carros alegóricos do BOPE. Junto a eles, policiais afastavam a multidão com grosserias e empurrões. O clima ficou tenso e pesado, paramos de tocar e decidimos ir até a calçada e descer a rua.


Foi então que vimos a pior cena, que nenhuma imagem de vídeo mostrou (nessa hora, não havia repórteres no local, pois estava tudo em paz). Os integrantes do BOPE desceram de seus carros alegóricos, formaram duas filas indianas e iniciaram seu desfile triunfal subindo a rua e lançando gás de pimenta e bombas de gás lacrimogênio em quem ousasse se aproximar. Aí só se ouvia a gritaria, só se via a correria. Pessoas se indignaram contra os ataques truculentos. Um integrante do Ventoinha tentou se aproximar, tomado pela revolta, perguntando pelo comandante da operação, mas antes que chegasse perto, três bombas foram lançadas em sua direção. Como o BOPE decidiu que ninguém ficaria na rua, as pessoas se espremiam nas calçadas, tentando sair pelas laterais das comerciais.


Então, as equipes de reportagem chegaram, e o restante foi o que a TV mostrou.
(Fonte: dftv.globo.com)

Esse vídeo foi feito por um simpatizante do Ventoinha de Canudo:


Os comandos da PM e do BOPE afirmaram que reagiram às violentas agressões dos foliões, que jogavam pedras e garrafas, além de seqüestrarem um tenente. O BOPE teria ido apenas resgatá-lo. Além disso, afirmaram que duas viaturas foram depredadas. Interessante é que não foi divulgada sequer uma imagem que corrobore essa versão dos fatos. Na verdade, é a palavra deles contra as dezenas de imagens feitas pelas equipes de TV e jornais, e pelas câmeras fotográficas da população. As viaturas depredadas desapareceram imediatamente da rua, ninguém as viu nem fotografou.

Depois que nos reencontramos, fomos até o Bar do Piauí, na 403 Sul, tentar juntar os cacos da Ventoinha despedaçada. Ainda tivemos força para tocar meia-hora, de 21:20 até 21:50. Como estávamos cheios de adrenalina, tivemos a idéia imbecil de ir ao Gran Folia tentar tocar. Heroicamente, tocamos cerca de meia-hora, concorrendo com o som do palco. Concluímos, exaustos, que ali ocorre o monopólio do som, e blocos pequenos não têm a menor chance contra a potência sonora do maldito PA.

O Secretário de Cultura do DF deveria rever seus conceitos. Aquilo não é carnaval, é um palco. Só.

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